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Toda habilidade da BNCC tem um código, e conferir o texto por trás dele dá trabalho. Por que criamos uma base aberta para isso, o que ela oferece hoje e o que ainda falta.

Publicado
Colina em ameixa sob uma faixa verde, com um sol coral no alto à direita, sobre papel creme.

O que a BNCC define

A Base Nacional Comum Curricular foi homologada em 2018 e descreve as aprendizagens essenciais a que todo estudante da educação básica tem direito. Ela é referência obrigatória para os currículos das redes de ensino e para as propostas pedagógicas das escolas, públicas e privadas.

Cada aprendizagem da BNCC é composta por uma frase curta que diz o que o estudante deve aprender a fazer, com um código próprio. No Ensino Fundamental e no Médio elas se chamam habilidades. Na Educação Infantil, objetivos de aprendizagem. Em EF09LP01, o EF é o Ensino Fundamental, o 09 é o nono ano, o LP é Língua Portuguesa e o 01 é a posição dela na sequência. A frase por trás desse código trata de reconhecer notícias falsas nas redes sociais. Somando a BNCC de 2018 e o complemento de Computação de 2022, são 1.721 aprendizagens.

Esses códigos circulam o dia inteiro na educação básica, do plano de aula ao edital que compra material para toda uma rede. Quem escreve um deles precisa ter certeza do texto que está por trás, porque o código sozinho não diz nada a quem lê depois.

Por que criamos

Conferir esse texto dá trabalho. A BNCC vive em PDFs de centenas de páginas e em planilhas do MEC, e nenhum dos dois devolve uma habilidade a partir do código. Cada equipe monta a sua própria versão dos dados e confere tudo de novo, refazendo o percurso que outra já fez.

Quem não vai refazer esse trabalho pergunta a um modelo de IA. Na rodada de agosto do nosso benchmark, pedimos a 19 modelos o texto de habilidades a partir do código, sem acesso a nenhuma fonte. Em média, 54% das respostas vinham com texto inventado. No complemento de Computação a média passa de 90%. O código sai no formato certo e a redação parece plausível, e quem lê não distingue o texto inventado do oficial sem abrir o PDF.

Na rodada de setembro, pedimos ao modelo mais bem colocado o texto da habilidade EF07CO04. Ele respondeu “Compreender o papel de protocolos para a comunicação entre computadores”. Soa como BNCC, mas a EF07CO04 de verdade trata de grafos.

Descobrimos isso em casa. Durante os testes do benchmark, achamos um plano de aula da Profy, a empresa que mantém a bncc.dev, citando EM13MAT703, um código que não existe. Ninguém tinha percebido, porque na forma ele é idêntico a um código de verdade.

Em um segundo estudo, os modelos do benchmark puderam consultar a base verificada antes de responder, e pararam de inventar códigos. Criamos a bncc.dev para que essa consulta ficasse resolvida uma vez, em público, ao alcance tanto de quem lê quanto das ferramentas que respondem.

Infraestrutura aberta

Cada uma dessas aprendizagens tem uma página própria, com URL permanente e um selo que aponta a página exata do PDF homologado de onde o texto saiu.

A página da habilidade EF09LP01, com o selo verde de texto conferido contra a página 179 do PDF oficial e o código decomposto em etapa, ano, componente e sequência.

Quem não vai ler página por página tem outras portas. Busca com filtros, navegação por etapa, componente, ano e área, um CSV em cada listagem, uma API e um servidor MCP para ligar um modelo direto à base. Os dados também estão no npm e no PyPI. Nenhuma dessas portas pede cadastro ou chave de acesso. A versão publicada tem DOI no Zenodo, então quem cita a base em pesquisa encontra o mesmo conteúdo anos depois.

Publicamos como a base foi organizada e como os testes do benchmark foram feitos. Quem encontra uma falha abre uma issue no repositório dos dados, e a correção chega a todas as ferramentas que usam os mesmos dados, a nossa inclusive.

Se a bncc.dev sumir amanhã, quem depende dela não fica na mão. O dataset inteiro cabe em poucos megabytes e está versionado em Git, em repositório público, então qualquer um clona hoje e segue sozinho. Escolhemos que a dependência fosse barata de romper, porque a possibilidade de todo mundo ir embora obriga quem mantém a trabalhar direito.

O que vem agora

A Profy usa essa base nas suas próprias soluções para educação. O custo se concentra em quem mantém e o proveito se espalha, que é como funciona um bem público e também a razão de procurarmos apoio institucional.

Queremos ampliar a base para outros referenciais curriculares e aprofundar as avaliações de IA. Isso depende de pesquisa e de manutenção constante, e de quem usa o projeto dizer o que está faltando.

Facilitar a consulta por código também facilita tratar a habilidade como item de checklist. Se isso vai melhorar o planejamento ou só encher relatório, ainda não sabemos. Vamos descobrir vendo o que as pessoas fazem com a base. O texto conferido resolve a parte verificável do trabalho, e decidir se uma atividade faz sentido para uma turma continua com quem conhece aquela turma.

Buscamos parceiros para compartilhar esse trabalho. Explore a base e conte para a gente o que ajudou e o que ainda falta.

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